O eterno não era para sempre

Pensei que o silêncio fosse perene, também pensei que falar fosse bom. Os dois devem ser verdadeiros sem portanto serem compatíveis… Simultâneos, momentâneos. Vou então utilizar deste momento para liberar a única coisa que tenho – as minhas palavras. São apenas minhas, não podem representar mais do que aquilo que sinto.

O espanto e a esperança de voltar a ter um contacto fora dum contracto institucional, duma obrigação forçada a um encontro profissional, dois momentos que se confrontavam ainda que timidamente. Porque tinhas passado a um plano do esquecimento, sobre um contracto comigo mesma em aceitar que o ponto final tinha sido demasiado rude, não tinha espaços nem tempos para serem escritas novas vírgulas.

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Jogos de ritmo

Se não puder explicar, pelo menos que possa escrever que não é malícia nem maldade. Também não é inocência nem falta de amor. São momentos construídos de espontâneo prazer, que não podem ser explicados ainda que sejam premeditados.

Quase sempre quando são imaginados não são concretizados e todas as vezes que acontecem, nascem no e do fruto duma frustração sem igual. Falta de acolhimento num momento urgente. É sempre a urgência que dita a velocidade com a qual se caminham a passos largos os dois pés juntos.

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De mim

O que podem dizer de mim todas as histórias infinitas que tento inventar, nas quais espero reinventar-me e ganhar uma nova vida. São elas a tradução duma frustração que ganho, dum momento que se estende e ao qual chamo de vida? Perdi-me dentro da casa à procura do mundo, pensando que os horizontes eram as paredes brancas que me embarcavam? Ou saí eu por aí afora, distraída e encontrei-me por acaso comigo mesma, entre duas taças de vinho e alguns olhares trocados. Um pouco de rímel e um toque de bâton. Esperava eu que um encontro causado comigo mesma fosse um lugar no qual finalmente poderia encontrar-me e dizer-me, como foi o caminho até hoje, sentir-me livre para mudar de estrada se esta me parece curta.

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Fugaz encontro no metro

Um fim de dia como um outro. Mas hoje estava mais cansada do que ontem. Precisava dum lugar para me sentar no metro. Vou entrar nesta porta, parece-me que há um lugar… Foi inesperadamente dentro do metro, este olhar que penetrava mais do que a proximidade à qual estávamos sentados. Existia uma curiosidade que pairava entre nós. Continuar lendo “Fugaz encontro no metro”

IV – Nem às paredes confesso

Confesso-me feliz quando vejo que seguimos juntos como dois cúmplices no metro. Diríamos duas pessoas que conversam abertamente e sem pudor depois de longos anos de intimidade.

De nada disso se tratava por tanto, mas a nossa proximidade era evidente.

O meu sorriso era traidor e a minha vontade de romper as regras era grande. Grande mas não desmesurada. Fiquei a olhar-te, enquanto imaginava as letras que te escrevo hoje. Continuar lendo “IV – Nem às paredes confesso”

III – Nem às paredes confesso

A noite estava destinada a mais um encontro entre desconhecidos. Por se tratar de uma pessoa querida num lugar tão estranho como a cidade romântica mais conhecida do mundo, decidi ainda assim levar a saia curta. Elegante para um aniversário cheio de advogados e vários sorrisos de meia hora, até a bochecha ficar naquela posição desconfortável. O gesto que fazemos quando estamos no lugar errado à hora certa e em que pensamos porque é que não pensei numa desculpa mais cedo. Fim de Janeiro. A crise económica não ultrapassa a crise que criava ao redor dos meus pensamentos e frustrações. Sair no meio da chuva e do frio, de saia curta em direção duma noite plena de estranhos, completamente prometedor. « Ah, eu estou atrasada!… Espera mais um pouco e eu chego!! » dizia ela ao telefone, enquanto corria no meio de dois metros, atarefada de sacos e balões de festa. Um casal de amigos e um casal de tenra idade. Afinal éramos todos convidados para a mesma festa. E eu sem nada compreender. Na mão a minha singela garrafa de vinho tinto, ornada de muito amor e um laço brilhante feito em papel. Queria modernizar o estilo e poder dizer-lhe que a tinha escolhido de propósito para o seu aniversário. Mas ela estava no metro. Chegou e tudo era ainda mais stressante no momento de receber os convidados. Éramos convidados à sua festa de anos, mas ela não festejava. Continuar lendo “III – Nem às paredes confesso”

II – Nem às paredes confesso

Quando saíste com o teu casaco negro fazias adivinhar o teu porte de natureza pequena no teu jeans tão bem repassado como a tua camisa, alinhados no teu lenço. Senti-me grande ao teu lado. E acredita que não era isso que procurava. Procurava mais poder ser protegida que exposta ao meu tamanho e ao meu desajeito.

A saia preta já me parecia curta e ainda assim as botas deveriam ter sido trocadas por algo mais elegante, como tu. Mas o conforto não me deu asas a que essa sedução pudesse ter lugar em tais circunstâncias.

Acredita que me fizeste medo. Não o suficiente, depois de tantas ilusões que criei. Mas o necessário para que deixasse de te encontrar – para me encontrar. Continuar lendo “II – Nem às paredes confesso”

I – Nem às paredes confesso

Podes vir. Podes chegar, eu estou pronta e não tenho medo de enfrentar os teus olhos castanhos, o teu riso tímido e desajeitado ao lado das tuas mãos tão inseguras, que se afirmam como se o mundo lhes pertencesse nesse momento desconhecido. Ficarei aqui até que os teus olhos possam dormir em paz, até que oiça os teus sonhos nos meus sonhos, até que veja o teu olhar no meu olhar. A tua insegurança é a tua maior rebeldia. Escondido nesse envolto de segurança e grandeza, na determinação apenas pensamos que és um vencedor. Mas na verdade és a alma despida de amor, és uma procura de reconforto e algo rejeitado e com isso tão frustrado. O controlo faz parte da tua soberania e é por isso tão complexo conseguir ficar a teu lado. Estarei pronta desta vez. Continuar lendo “I – Nem às paredes confesso”

De Lisboa a Paris : o que mudou ?

A minha vida em cinco pontos 

1 – não me canso de dizer, mas uma agenda é quase indispensável. Seja electrónica, isto é, no email ou no telemóvel, ou seja como a minha, no bom e velho papel. Toda rascunhada, cheia de números sem nome. De nomes sem número. E de datas, sempre no dia errado. Mas é importante. Lembro-me do primeiro dia que cheguei à associação do voluntariado (quando fiz o voluntariado europeu), a tutora perguntou-me se eu tinha uma agenda. Eu, na minha ingenuidade, levei a pergunta para o sentido tens uma agenda? és uma pessoa muito ocupada?. Não era isso. E ela tratou logo de me encontrar uma agenda novinha em folha. 2013. Um ano que durou, durou… A agenda é um acessório indispensável seja na vida íntima ou profissional. Mas um dia falo melhor sobre isto…  Continuar lendo “De Lisboa a Paris : o que mudou ?”

Como a raiva cria energia

Acabou de sair « Demolition » um filme de Jean-Marc Vallée. O plano quase ideal para sábado à noite. Sem prever, aventurei-me. Li rapidamente a descrição do filme, sem prestar atenção ao título e ao resumo. Não costumo ver os vídeos de anúncio, para não criar expectativas inesperadas… E lá fomos nós. Não vou contar a história, mas aconselho que passem vê-lo!

Deixei-me levar neste sentimento de destruição entre uma procura de si mesmo, rodeado de todos os outros. Na descoberta duma nova pessoa. Aquele novo eu, que procura saber o que sente. Não podia sentir-me mais próxima pelo número de cartas que trocam, pela forma de liberdade que a escrita lhe(s) procura. Continuar lendo “Como a raiva cria energia”