O eterno não era para sempre

Pensei que o silêncio fosse perene, também pensei que falar fosse bom. Os dois devem ser verdadeiros sem portanto serem compatíveis… Simultâneos, momentâneos. Vou então utilizar deste momento para liberar a única coisa que tenho – as minhas palavras. São apenas minhas, não podem representar mais do que aquilo que sinto.

O espanto e a esperança de voltar a ter um contacto fora dum contracto institucional, duma obrigação forçada a um encontro profissional, dois momentos que se confrontavam ainda que timidamente. Porque tinhas passado a um plano do esquecimento, sobre um contracto comigo mesma em aceitar que o ponto final tinha sido demasiado rude, não tinha espaços nem tempos para serem escritas novas vírgulas.

O peso dos desencontros tinha marcado os espíritos, sobretudo o meu. Não se tratava apenas duma distância física mas duma procura da liberdade que me tinhas anunciado naquela tarde de sol. Eu ainda tinha muito para descobrir, tu não poderias ir comigo neste caminho, já tinhas o teu. Isso seria dizer que eu tinha o tempo, o espaço e a vida de ir descobrir esse tal caminho que deveria ser o meu.

Inútil mencionar o amor que sentia, o desalento e a falta de compreensão sobre um momento que tinha de cessar, mas que eu não acreditava que terminasse. Sobretudo não queria. Por acreditar acima de tudo num amor que era o primeiro. Que é o primeiro. Que tinha tudo para crescer errado, se transformar em algo nefasto e ainda assim conseguir plantar flores na minha vida, provocar este jardim onde plantei tantas memórias contigo.

Não é que te queira escrever esta carta aberta ao meu (des)alento. É porque preciso de o dizer, sabendo e ignorando os teus silêncios, as tuas palavras, a tua crueza e ainda mais a tua frieza. De ser transplantada à realidade pelo presente da vida que temos.

Ainda assim. Como poderei eu calar agora as palavras que acreditei, morreriam comigo para sempre. Não ousaria novamente a falar com o coração, com a sinceridade, com a vontade de verdade. Apesar de teres encontrado uma nova Andreia num restaurante, nessas noites quentes que só o Alentejo sabe dar… Não estaria livre nem disposta a me despir em palavras para te contar como é viver com estas memórias perturbadoras, com estes silêncios apagados e com tantas palavras largadas aos quatro cantos, sem que de nenhuma delas saibas, ainda que todas te sejam endereçadas. Todas, muitas. Algumas por vezes. Nenhuma também.

Quiseram dizer-me que deveria ser uma espécie de doença este sentimento que se apodera dos corpos, que os habita num tempo sem fim. Que transporta os sons, os sabores e os cheiros entre os tempos, quando o presente vira passado e quando o passado é um segredo mal guardado. Não conseguirei explicar. Não procuro explicar aquilo que nem eu sei bem como nomear. Apenas que não estava pronta para ter uma longa abertura de sinceridade, um momento apenas que seja para poder partilhar um pensamento assim.

Aquele regresso nesse quente do fim de verão era apenas o reflexo de um ciclo que se fechava, enquanto novas portas se abriam, nada mais do que isso. E se ainda que eu tenha mudado, não mudei tanto na minha sinceridade e nas minhas emoções. Fiquei devastada por momentos, odiei-te sem fim. Sem por isso ter deixado de sufocar o único sentimento, igual ao primeiro. A esse que nunca morreu. Esqueci o ódio, continuei com raiva. Mas face a ti, sou apenas a mesma. Não consigo esconder-me. Não te podes esconder.

Adivinhava os teus gestos, os teus pensamentos. Adivinhava como lhe tocavas a mão à minha frente sentados. Adivinhava a tua cara fechada, como sempre. Ninguém compreende como podes viver tão feliz no teu sorriso sempre tão fechado no teu rosto. Não de agora, de sempre. Sempre ouvi isso, nunca o compreendi porque achava-me privilegiada de conhecer a verdadeira pessoa que tem um sorriso atrás desse monte de pensamentos reflexivos que transpõem apenas um rosto fechado.

Avanço-me sem conta, demais, apenas por ousar escrever estas palavras soltas que me correm pelas veias, num frenesim alimentado pelos sons da cítara. Queria dizer-te livremente e sem preconceitos que sinto a tua falta. Que a senti arrebatadoramente durante as palavras bobas e soltas que pudemos trocar, parecia-me infantilmente o primeiro dia de uma outra história. Não posso dizer-te isso. Irias considerar-me louca. Também não poderás ler isto, porque sou verdadeiramente louca. Não vejo como combater-me se resto em silêncio e se dou voz a esta insegurança passarei por uma inebriada, embriagada talvez.

É apenas uma urgência de partilhar as palavras, de dar letra às palavras que calaram durante tanto tempo. Ainda que nada mude, ainda que nada possa mudar. Ainda que se cale o silêncio, desculpa-me por isso o acto egoísta de expôr apenas a minha sede, sem que portanto sejas água. Eu sei que é tarde. Mas também não haveria um momento mais cedo, era impossível. Guardei a raiva, a tristeza e por vezes o ódio, a desilusão uma dor que não tinha outro igual. Uma crença em amor uma doença de amar.

As palavras são vãs. Não têm um sentido, procuro apenas o meu sentido nelas e como penso em ti, apenas posso partilhá-las. Sem te esconder a angústia que me causa estes minutos frenéticos enquanto escrevo, enquanto sei e calculo sem imaginar o peso estúpido que podem ter, apenas por saírem de mim. De não continuarem guardadas nos meus cadernos e te serem ditas.

Queria dizer-te tantas coisas…

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Imagem Editada ©Ryan McGuire Gratisography 

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