Livro meu, livro meu, quem é mais medrosa do que eu?

Tinha dezasseis anos e escrevi de enfilada aquilo que deveria ser um livro. O livro para um concurso literário, a professora de português estava contente quando me falou nisso. Já podia escrever no computador, mas já era apegada às canetas e ao papel. Lembro-me do molho de folhas amarrotas que lhe dava cada semana. Era preciso escrever cinquenta páginas A4. Dito assim, parece quase nada. Mas para mim parecia-me um infinito, ao mesmo tempo sentia-me presa à ideia de não ter liberdade.

Esqueci-me rapidamente o resto. De tudo. Passei horas dentro daquela tinta, à procura da chave que seria a mestra da minha vitória. Ela lia cada semana. Fazíamos uma troca. Eu dava-lhe folhas frescamente rascunhadas e ela um vermelho de acre, para as correções. Já não gostava de correções nessa época. Ainda que goste do vermelho, sentia-me perturbada. Na minha memória ela era justa, não alterava as minhas ideias e respeitava a minha imaginação. Não me dizia que era muito infantil ou demasiado ousado. Ela estava deliciada e queria conhecer o fim da história. E desse dia eu lembro-me bem. Ela tinha uma espécie de luz, eram pequenas estrelas nos olhos. Estava curiosa e eu estava no final das cinquenta páginas. Mas para mim, estava longe do fim.

A quinquagésima página chegou. Sinto um frio no estômago, a Jessica e o Kevin estão prestes a partir e eu não sei o que vou fazer com todas as ideias que tinha para escrever. A data do concurso aproxima-se, estamos a um mês do final do ano. É preciso começar a retranscrever – os erros a vermelho, a tinha azul e as páginas amassadas. Quantas vezes chorei as lágrimas dos meus personagens, enquanto me sentia partir numa história de amor entre duas pessoas que não existem. Eles faziam do meu mundo um lugar paralelo. Existíamos à parte, naquelas folhas. Urgente! Rápido! É preciso entregar as últimas folhas, ela vai corrigir ao mesmo tempo que eu começo a escrever no computador. E… Já tenho vontade de mudar. Quero mudar tudo, não gosto desta história e aqueles personagens são idiotas. Mas não tenho tempo. Aquele concurso criou muita expectativa em mim? Não. Mas as estrelas nos olhos dela deram-me a ilusão duma enorme esperança. Afinal era verdade… Eu podia escrever!

Escrevi durante varias dias, aquelas letras que me pareciam dolorosas. Estávamos a duas semanas da data de entrega. Hoje eu recebia as últimas correções e agora dependia apenas de mim. E… o inesperado acontece. Uma semana depois volto à aula de português, estou devastada. Como é que lhe vou dizer? As minhas letras são proporcionais à minha emoção. Mas o computador não sente nada do que lhe digo. Deixou-me na página quarenta e oito. Como assim? Quarenta e oito? Estava em meio do fim. Ela continuava a acreditar. E deu-me toda a força – podes escrever uma página e meia, nada vai acontecer. E envias. Tens de enviar. Oiço na minha cabeça aquelas palavras… Voltei destroçada no fim da minha história. Ela não sabia que esses personagens não existiam mais? Que durante os dias que transcrevia, me desapropriava dessa história que queria que fosse minha?

©Ryan McGuire
©Ryan McGuire
 Imagem Editada ©Ryan McGuire
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