Como viver num estúdio

Ou a arte de viver entre 22 m². É uma experiência que hoje não vejo da mesma forma, chegada em França. Após vários, vários anos a partilhar casa, quarto ou apartamento com uma ou sete pessoas, vejo-me remetida à minha pessoa. Como assim, viver sozinha comigo mesma? Eu explico: eu falo imenso. Preciso de falar e encontrei-me sozinha no meu silêncio, quem sabe até falei sozinha. Num apartamento com paredes de papel, podia contabilizar cada ida aos toilettes dos meus vizinhos, no final parecia que vivíamos juntos – mas não. Tive de me fazer à ideia rapidamente e aprender a viver nesse silêncio sombrio, com a neve e o inverno que se juntaram à mudança nesta região agrícola perdida no meio da França.

Ainda assim é preciso admitir: tinha acabado de passar dois meses em família, certo. Mas antes disso dividia a casa com três outros estudantes – de quem não sinto saudades; e antes de vivermos alguns meses tumultuosos vivia num enorme apartamento com seis jovens estudantes e trabalhadoras. A casa que marcou mais espíritos, sonhos, projectos e vidas do que aqueles que as paredes podem testemunhar. E ainda bem, há que guardar um certo mistério sobre o passado de cada um. Os momentos que se partilham ilustram uma parte da história, não são o cenário completo. O tamanho da casa não chega portanto para falar no tamanho das memórias, ainda que tenha um certo peso… Melancólica viro-me para a janela daquele estúdio, com vista para os prédios vizinhos e para um céu cinzento interminável. Vivia perto da estação de comboios e tinha uma bicicleta exclusivamente para mim. O início de vários quase-acidentes. Felizmente só a chapa restou para testemunhar.

A verdadeira arte não era de aprender a viver entre estas quatro paredes, com ares de palácio. A verdadeira arte é de conseguir suportar-se sozinho com os seus amigos invisíveis e ainda ocupar o espaço vazio, porque os móveis são escassos. Tudo aliás era um pouco racionalizado: um copo, um garfo, uma colher… Nem tinha uma faca para cortar a charcutaria – que rapidamente se tornou minha amiga das horas vagas, para cortar o frio. Não tardou muito até eu inventar uma nova disposição que me desse a ideia que o quarto/sala/escritório se torna-se ilusoriamente mais repleto. Com falsos espelhos, com posters na parede, com livros e velas.

Mas essa não foi a única experiência reduzida. Se muitos sonham com Paris nem todos têm a verdadeira noção de como é difícil alugar um apartamento. Não sejam somente os preços exorbitantes que dificultam a tarefa… mas também a burocracia infinita que tanto caracteriza a cidade das luzes. E entre a saída dos Ardennes até à chegada em Paris as opções eram visivelmente reduzidas ao squat do sofá de alguém. Esse squat já era o início duma história que dura até hoje. Mas tivemos de aprender a dividir o mesmo espaço, comigo dentro. Comigo, com as minhas roupas. Com meus livros (parecem cogumelos, aparecem em todos os lados), com os meus sapatos e principalmente com os casacos. Tenho este amor especial pelos casacos, uma razão muito feliz que adoça a vida invernal em Paris. Porque vinda do sul, vinda do sol, vinda de longe, não é fácil adaptar-se a estas mudanças meteorológicas.

©Ryan McGuire
©Ryan McGuire
Imagem Editada ©Ryan McGuire
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