Um adeus precipitado

Dentro destes anos cabem também algumas (muitas) dúvidas sobre este adeus precipitado, sobre esta forma de estar ausente. Na verdade não tivemos tempo para dizer adeus, o vazio tornou-se apenas uma forma de estar instalado dentro do espaço que se criou com o aumento da instabilidade, dos problemas.

Deixei de criar culpa-ções para me dedicar a viver a vida, ainda que idealizando em algum lugar da minha cabeça como seria partilhar as minhas dúvidas contigo. Quando alguém parte precipitadamente ou viaja sem regresso, guardamos sempre a melhor imagem possível. Aquela que demonstre no presente e no futuro, aquilo do que mais nos orgulhamos pelo passado. E é assim que te idealizo nos silêncios que partilhamos, nas cartas que rasgo e nas saudades que me apertam.

Não sou pai nem mãe, sou apenas irmã e filha. E ainda assim ausente e por isso sem força para exprimir o que poderiam ser os teus pensamentos, dores, angústias. Nunca tive nenhum sentimento transbordante para ser eu também responsável por alguém. Mas queria agradecer-te(vos) pela parte que tiveste na minha vida. Seja ela imaginada, verdadeira ou apenas uma vaga memória. Ainda e sempre é com orgulho que penso no teu sorriso, nos teus olhos verdes e nos teus cabelos encaracolados. Sim, é com tristeza que este adeus precipitado me causa amargura. Por não partilhares com ela o mesmo que eu vivi contigo.

Cresci isolada dentro dos meus mundos paralelos, livros, poemas e cadernos. Com a insegurança de dez, com a arrogância de cinco mas com o amor de muitos. E com o teu amor também. Queria acreditar que tinhas uma presença indispensável e que tinhas mudado alguma parte no mundo – do mundo, apenas. Mesmo sabendo que eras apenas o meu pai. Idealizava portanto todas as páginas dos livros que não lias, mas que com amor me transmitias as paixões que se tornaram minhas.

Precisava duma razão para me justificar desta força e desta razão que é urgente para mim de partilhar. De deixar sair das minhas entranhas aquilo que não tenho mais espaço de guardar. Porque preciso de renovar os meus sentidos e alimentar a minha curiosidade, incessante e sem parar. Decidi talvez no mais profundo de mim, atribuir-te esta paixão pelas letras. Mesmo que ela seja apenas uma nuvem que eu criei.

Guardo porém e bem verdadeiros os cheiros que me lembram da minha infância, que me lembram de ti e do verão. O pão quente, os croissants, as cerejas e o sol. Lembro-me de ti nas padarias daquele lugar, quando a pé desço as estradas quando o sol queima os pés. Ainda pelos caminhos mais perdidos do meu alentejo e sobretudo quando viajo horas de carro e vejo a paisagem desfilar. Como se nos encontrássemos nestes momentos em que estás presente. Mais presente do que naqueles momentos em que choro pela tua ausência silenciada.

Sabes que ainda era cedo para que eu te deixasse partir. Sei que não poderei compreender nunca porque decidiste de ir. Mas quero que saibas que é sempre como ontem que falo de ti. Porque não te esqueci.

Imagem Editada ©Dave Meier
Anúncios

Deixa o teu comentário !

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s